Capítulo 29: O Café Queimado
Ela entrou no café como quem não espera nada — mas já sabia que tudo podia acontecer. O lugar era o mesmo. A mesa, a luz, o cheiro. Mas ela não era mais a mesma. E ele também não. Ele já estava lá. Sentado, como antes. Mas agora com um olhar que não se escondia. Quando a viu, não sorriu. Apenas a observou. Como quem reconhece um incêndio prestes a reacender. Ela se aproximou devagar, sem pedir licença. Sentou-se à frente dele, cruzou as pernas com precisão. O silêncio entre os dois era denso, quase palpável. — Você ainda toma café como se fosse pecado — ela disse, provocando. — E você ainda chega como se fosse perdão — ele respondeu, sem piscar. Ela riu. Um riso baixo, cheio de tensão. Ele se inclinou, os olhos fixos nos dela. — Você veio por acaso? — Eu não acredito mais em acaso. Ele tocou a borda da xícara, mas não bebeu. Ela passou os dedos pelo colar, como quem disfarça o desejo. E então, sem aviso, ele falou: — Eu pensei em você ontem. E não foi lembrança. Foi vontade. Ela mordeu...