Capítulo 22: O Texto que Nunca Foi Enviado
Ele estava sentado à sua mesa, cercado por livros, papéis e uma xícara de café que esfriava lentamente. A cidade lá fora seguia seu ritmo, mas dentro dele, o tempo ainda voltava àquele dia — ao café, ao reencontro, ao silêncio que dizia mais do que qualquer palavra.
Ele não sabia por que escrevia. Não esperava resposta, não
buscava reconciliação. Mas havia algo que precisava sair. Algo que, se não
fosse escrito, continuaria ocupando espaço demais.
E então, começou:
“Você foi um instante. Mas não um instante qualquer.
Foi aquele tipo de momento que não se mede em minutos, mas em intensidade.
Aquele café, aquela conversa, aquele quase-toque — tudo isso vive em mim como
se tivesse acontecido ontem.
E talvez tenha. Porque há lembranças que não obedecem ao calendário.”
Ele parou. Respirou fundo. Continuou:
“O que vivemos não foi um romance. Não teve começo, meio e
fim.
Foi uma dobra no tempo. Um desvio.
E nesse desvio, eu fui mais eu do que em muitos anos de rotina.
Você me viu. E isso, por si só, foi suficiente para me mudar.”
Ele não escrevia com dor. Escrevia com reverência. Como quem
homenageia algo que não precisa durar para ser eterno.
“Eu não espero te encontrar de novo.
Mas se acontecer, quero que saiba:
aquele café foi o lugar onde eu descobri que o amor não precisa de promessas.
Só de presença.
E você esteve presente. Intensamente.
Obrigado por isso.”
Ele fechou o caderno. Não enviaria. Não mostraria a ninguém.
Mas aquele texto era necessário. Era a forma de dar forma ao que não teve
forma. De eternizar o que foi breve. De seguir em frente sem apagar o que
ficou.
E ela, para ele, seria sempre isso:
um aroma que o tempo não levou.
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