Capítulo 20: A Volta ao Centro
Ela passou dias em silêncio. Não o silêncio que sufoca, mas o que escava. O tipo que obriga a olhar para dentro, para os cantos esquecidos, para os desejos abafados por metas e compromissos. A traição havia deixado um rastro de dor, sim — mas também um espaço. Um vazio que, aos poucos, começou a parecer fértil.
Ela voltou a caminhar sozinha. Sem destino, sem pressa.
Começou a frequentar lugares que gostava antes de se moldar ao gosto de alguém.
Redescobriu o prazer de estar só — não como ausência, mas como presença plena.
E, pela primeira vez em muito tempo, começou a se ouvir.
Comprou um caderno novo. Escrevia todos os dias, sem filtro.
Textos curtos, fragmentos de pensamento, confissões que não cabiam em conversa.
E ali, entre palavras soltas, começou a reencontrar a mulher que havia deixado
para trás — aquela que sonhava com intensidade, que não tinha medo de sentir,
que sabia que o amor não se mede em estabilidade.
Ela também começou a se cuidar de outro jeito. Não por
estética, mas por afeto. Mudou o corte de cabelo, voltou a dançar em casa, fez
uma viagem sozinha para uma cidade pequena onde ninguém a conhecia. E ali,
entre estranhos, sentiu algo que não sentia há tempos: liberdade.
Ele ainda surgia em pensamentos. Não como desejo, mas como
símbolo. Ele representava o que ela não viveu, o que ela não teve coragem de
escolher. E isso a fazia querer ser mais verdadeira com ela mesma — não por
ele, mas por tudo que ela havia deixado de ser.
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