Capítulo 1: A Chegada ao Café

Ela chegou atrasada, como quem sabe que o tempo não importa quando se tem presença. O vestido vermelho não pedia licença — ele invadia. Cada passo seu ecoava como uma nota de jazz num bar abafado, e quando cruzou a porta do café, os ponteiros do relógio pareceram hesitar.

Ele já estava lá, fingindo ler um livro que não conseguia mais entender desde que ela dissera “precisamos conversar”. Ele não sabia se era um fim ou um começo, mas sabia que seria intenso.

— Você está linda — disse ele, com a voz rouca de quem não dormiu bem.

Ela sorriu com os olhos, mas não respondeu. Sentou-se devagar, cruzando as pernas com a precisão de quem sabe que o gesto é uma arma. O silêncio entre eles não era desconfortável — era carregado. Como eletricidade antes da tempestade.

— A gente se encontrou na pior hora, não foi? — ela disse, mexendo distraidamente no colar que repousava sobre o colo.

— Ou na única possível — ele respondeu, sem tirar os olhos dela.

As palavras eram poucas, mas os olhares diziam tudo. Ali, naquele café esquecido pelo mundo, dois corpos lembravam o que era desejo: não o vulgar, mas o que nasce da saudade, da impossibilidade, da urgência de tocar o que não se pode ter.

Ela se inclinou, como quem vai contar um segredo, e o perfume dela invadiu o espaço entre os dois. Ele fechou os olhos por um segundo — e nesse segundo, imaginou tudo: o quarto, os lençóis, os sussurros, o calor.

— Se eu disser que ainda penso em você todas as noites, você vai me julgar? — ela perguntou.

— Só se você disser que não pensa em mim quando acorda.

Ela riu, e o riso dela era quase um beijo. A conversa continuou, mas já não importava. O desejo não precisava de contexto. Quando ela se levantou, ele soube que o encontro não terminaria ali.

— Vem comigo — ela disse, sem olhar para trás.

E ele foi. Porque há amores que não pedem permissão. Eles acontecem. Escorregam no balanço das horas, sim — mas antes disso, queimam. E às vezes, é no incêndio que a eternidade se revela.

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