Capítulo 16: O Homem que Aprendeu a Conviver com o Quase

Ele não era mais o mesmo desde aquele reencontro. Não que tivesse mudado radicalmente — ele ainda frequentava os mesmos cafés, lia os mesmos autores, sorria com o mesmo canto da boca. Mas algo dentro dele havia se deslocado. Como uma peça que muda de lugar e, mesmo sem cair, altera toda a estrutura.

Ele tentava reconstruir. Reformou o apartamento, trocou os quadros de lugar, comprou plantas que não sabia cuidar. Começou a correr pela manhã, como se o movimento pudesse apagar o que ficou parado dentro dele. Mas a lembrança dela persistia — não como dor, mas como presença.

Ela não o impedia de viver. Mas moldava o jeito como ele vivia.

Ele se envolveu com outras pessoas. Algumas intensas, outras breves. Mas nenhuma ficava. Não por falta de afeto, mas porque ele já não oferecia espaço inteiro. A lembrança dela ocupava um canto da alma que ele não conseguia desalojar — e, no fundo, nem queria.

Ele começou a escrever. Não cartas, nem mensagens. Apenas fragmentos. Diálogos que nunca aconteceram. Despedidas que ele imaginava. Reencontros que não ousava desejar. E aos poucos, percebeu que não precisava esquecê-la. Precisava aprender a viver com o que ela representava: o que poderia ter sido, mas não foi.

“Ela foi o intervalo entre o que eu era e o que eu não soube ser.”

“Algumas pessoas passam. Outras permanecem, mesmo quando vão embora.”

Essas frases não curavam, mas organizavam o caos. E com o tempo, Ele foi entendendo: não se trata de apagar. Se trata de aceitar. Que ela foi o que foi. Que o tempo não volta. Que o silêncio também é resposta.

Ele não esperava reencontrá-la, mas não negava sua existência. Ela era parte dele — não como ferida, mas como cicatriz que molda o jeito de andar.

E assim, Ele seguia. Um homem que aprendeu a conviver com o quase. Que não esperava mais o reencontro, mas também não o temia. Porque às vezes, o que não acontece é o que mais nos transforma.

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