Capítulo 27: O Começo que se Reescreve
Depois da palestra, os dois caminharam até um café próximo. Não o mesmo de antes, mas parecido — pequeno, com luz baixa e cheiro de grãos moídos. Sentaram-se frente a frente, como se o tempo tivesse apenas pausado, não passado.
Ela olhava para ele com curiosidade contida. Ele, com a serenidade de quem já não espera, mas ainda sente.
— Você mudou — ela disse, mexendo na xícara.
— Você também. Mas ainda cruza as pernas do mesmo jeito quando está prestes a dizer algo importante.
Ela sorriu. Um sorriso que não era tímido, nem provocativo. Era íntimo. Como quem reconhece um lugar dentro de si.
— Eu li seus textos — ela confessou. — Não todos. Mas os que me encontraram.
Ele assentiu, sem surpresa.
— Eu escrevo para o que não volta. E você... foi o que nunca partiu de verdade.
Ela ficou em silêncio por um momento. O café entre eles esfriava, mas o ar parecia quente. Familiar.
— Eu pensei em te procurar — ela disse. — Mas achei que seria covarde. Como se eu quisesse reviver algo que já tinha passado.
— E agora?
— Agora eu não quero reviver. Quero entender.
Ele se inclinou levemente, os olhos fixos nos dela.
— A gente nunca teve começo. Só intensidade. E às vezes, isso é mais difícil de esquecer.
Ela respirou fundo. O peso do que não foi parecia mais leve agora. Mais possível.
— Você lembra do dia em que nos conhecemos? — ela perguntou.
— Como se fosse um roteiro que nunca saiu do papel.
— Eu te achei insuportável.
— E eu soube que você ia me deixar com saudade antes mesmo de ir embora.
Ela riu. Um riso solto, como no primeiro capítulo. E naquele instante, algo se fechava — ou talvez se abrisse.
Porque o reencontro não era sobre repetir. Era sobre reconhecer. E ali, entre palavras e silêncios, eles começavam a reescrever o que nunca foi dito.
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