Capítulo 10: O Eco do Acaso

Três dias depois, ela estava atrasada. Não por descuido, mas por excesso de compromissos. A reunião havia se estendido, o trânsito estava um caos, e tudo o que ela queria era um café forte e cinco minutos de silêncio antes de encarar mais uma noite de planilhas e metas.

Entrou no café da esquina — não o mesmo de antes, mas parecido. Pequeno, com cheiro de grãos moídos e conversas baixas. Pediu um espresso duplo e sentou-se perto da janela, tentando reorganizar os pensamentos.

Foi então que ouviu a risada.

Baixa, rouca, familiar.

Virou o rosto devagar, como quem não quer confirmar o que já sabe. E lá estava ele. Ele. Sentado sozinho, lendo um livro que parecia realmente ler dessa vez. A camisa era diferente, mas o sorriso era o mesmo — aquele que não pedia nada, mas oferecia tudo.

Ela hesitou. Ele a viu. E não se surpreendeu. Apenas fechou o livro com calma e ergueu a sobrancelha, como quem diz “eu avisei” sem precisar falar.

— Você tem um talento estranho pra aparecer quando não deve — ela disse, aproximando-se.

— Ou quando mais precisa — ele respondeu, sem se levantar.

Ela sentou-se à frente dele, sem pedir. O espresso ainda fumegava na mesa ao lado. Ele olhou para ela como quem observa uma lembrança que voltou antes da hora.

— Você acredita em coincidência? — ela perguntou.

— Não. Acredito em timing. E o nosso é péssimo.

Ela riu. Um riso curto, mas sincero. E naquele instante, o destino conspirava. Não com promessas, nem com certezas. Mas com a simples presença de dois corpos que se recusavam a se perder.

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