Capítulo 23: A Palavra que Encontra
Ele não escreveu para ela. Escreveu para o mundo — ou talvez para si mesmo. O texto nasceu numa madrugada silenciosa, entre uma xícara de café e uma lembrança que insistia em não dormir. Ele publicou sem pensar, num blog discreto que mantinha há anos, onde deixava fragmentos de si espalhados como migalhas.
O texto não tinha título chamativo. Não tinha nomes. Mas
tinha alma.
“Há encontros que não precisam durar para serem eternos.
Um olhar, uma conversa, um quase-toque — e o mundo muda.
Não porque algo começou, mas porque algo dentro da gente foi revelado.
Ela foi isso. Um instante que me ensinou a intensidade do que não se vive.”
Ele não compartilhou em redes sociais. Não comentou com
amigos. Apenas publicou e seguiu o dia. Mas o texto, como tudo que carrega
verdade, encontrou caminho.
Ela estava em casa, tentando reorganizar a vida depois da
ruptura. Navegava sem rumo, buscando distração, quando caiu num link
compartilhado por uma amiga — uma coletânea de textos sobre encontros breves e
transformadores. E ali, entre tantos, estava o dele.
Ela leu devagar. Cada linha parecia escrita com a voz que
ela lembrava. O ritmo, o silêncio entre frases, a escolha das palavras — tudo
era Ele. E mesmo sem assinatura, ela soube. Não por lógica, mas por
reconhecimento.
O texto não pedia nada. Não buscava retorno. Mas a tocava
como só ele sabia fazer.
Ela fechou o navegador, ficou em silêncio por um tempo. E
então sorriu. Um sorriso pequeno, contido, mas cheio de algo que não se nomeia.
Porque às vezes, o que não é dito é o que mais se sente.
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