Capítulo 3: Amar não é suficiente

A manhã chegou sem pedir licença. A luz atravessava as cortinas como dedos curiosos, tocando os corpos entrelaçados com uma delicadeza quase cruel. Ela acordou primeiro, observando Ele dormir com a serenidade de quem, por uma noite, esqueceu o mundo.

Levantou-se devagar, vestiu a camisa dele — larga, cheirando a lembrança — e foi até a janela. Lá fora, a cidade já corria, indiferente ao que havia acontecido entre aquelas quatro paredes. Mas dentro dela, tudo estava em suspensão.

Ele abriu os olhos e a viu ali, de costas, com o cabelo desarrumado e a pele ainda quente do que viveram. Ele soube, sem precisar ouvir, que aquela era a última vez.

— Você vai embora? — perguntou, a voz ainda embriagada de sono e desejo.

Ela virou-se, com um sorriso triste.

— Já fui, Ele. A gente só não percebeu.

Ele se levantou, caminhou até ela, e a abraçou por trás. Ficaram assim por um tempo, sem palavras, como se o silêncio fosse a única forma de respeitar o que viveram. O toque dele dizia “fica”, mas o coração dela já estava em outro tempo, em outra estrada.

— Eu te amei — ele disse, com a sinceridade que só vem quando não há mais nada a perder.

— Eu também. Mas às vezes, amar não é suficiente.

Ela se virou, beijou-o com a suavidade de um adeus, e saiu. Sem drama, sem promessas. Apenas com a certeza de que aquele amor, embora breve, seria eterno na memória.

Ele ficou ali, sozinho, com o cheiro dela nos lençóis e o gosto dela nos lábios. E enquanto o sol subia, ele entendeu: o amor não acontece quando queremos. Ele vem, arde, ensina — e depois, se vai. Mas nunca sem deixar algo para trás.

Comentários

Postagens mais visitadas