Capítulo 6: O Café e o Cerco
Ela ainda não sabia se ele era um erro ou um acaso interessante. Mas continuava ali, sentada ao lado, fingindo revisar um relatório que não fazia mais sentido. Ele, por sua vez, parecia confortável demais para alguém que sabia que podia ser dispensado a qualquer momento.
— Você sempre tem essa cara de quem sabe mais do que
deveria? — ela perguntou, sem tirar os olhos da tela.
— Só quando estou diante de alguém que finge não estar
curiosa.
Ela bufou, mas não respondeu. Ele acertara. Havia algo nela
que queria entender por que aquele homem, com a camisa manchada e o sorriso
fácil, parecia tão seguro — como se já tivesse vivido aquele momento antes.
— Você é vendedor de quê? — ela provocou. — Porque esse papo
tem cara de script.
— Vendedor de finais bonitos. Mas só para quem topa viver o
meio.
Ela riu, apesar de si mesma. Era o tipo de resposta que ela
odiava gostar. Ele se inclinou um pouco, como quem não quer invadir, mas quer
ser notado.
— Posso te fazer uma pergunta? — ele disse.
— Já está fazendo.
— Por que você parece sempre pronta para ir embora?
Ela parou. O silêncio entre eles ficou mais denso. Ele não
estava brincando agora. E isso a incomodava mais do que o barulho do café.
— Porque eu aprendi que ficar demais costuma doer.
Ele assentiu, como quem entende sem julgar.
— Então vamos fazer assim: eu fico só o suficiente pra te
fazer rir. Depois, você pode ir embora sem culpa.
Ela olhou para ele. Havia algo nos olhos dele — uma espécie
de tristeza disfarçada de charme. Como quem já esperava o fim, mas ainda assim
escolhia estar ali.
— Você é um incômodo interessante, Ele.
— E você é uma fuga que eu não quero evitar.
Ela sorriu. Pequeno, contido. Mas verdadeiro. E naquele
instante, o tempo pareceu desacelerar. O café já não importava. O relatório,
menos ainda. Só restava aquele espaço entre os dois — cheio de possibilidades e
riscos.
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