Capítulo 29: O Café Queimado
Ela entrou no café como quem não espera nada — mas já sabia que tudo podia acontecer. O lugar era o mesmo. A mesa, a luz, o cheiro. Mas ela não era mais a mesma. E ele também não.
Ele já estava lá. Sentado, como antes. Mas agora com um olhar que não se escondia. Quando a viu, não sorriu. Apenas a observou. Como quem reconhece um incêndio prestes a reacender.
Ela se aproximou devagar, sem pedir licença. Sentou-se à frente dele, cruzou as pernas com precisão. O silêncio entre os dois era denso, quase palpável.
— Você ainda toma café como se fosse pecado — ela disse, provocando.
— E você ainda chega como se fosse perdão — ele respondeu, sem piscar.
Ela riu. Um riso baixo, cheio de tensão. Ele se inclinou, os olhos fixos nos dela.
— Você veio por acaso?
— Eu não acredito mais em acaso.
Ele tocou a borda da xícara, mas não bebeu. Ela passou os dedos pelo colar, como quem disfarça o desejo. E então, sem aviso, ele falou:
— Eu pensei em você ontem. E não foi lembrança. Foi vontade.
Ela mordeu o lábio. O gesto antigo, agora carregado de intenção.
— E o que você faria se eu dissesse que pensei em você também?
— Eu pediria que você não dissesse mais nada. Só ficasse.
Ela se inclinou. Perto o suficiente para que ele sentisse o perfume, o calor, a hesitação.
— Você ainda é insuportável.
— E você ainda é o tipo de mulher que me faz esquecer que tenho limites.
O silêncio entre eles explodiu em tensão. Não havia toque. Mas havia tudo. Os olhares, os gestos, o desejo que não precisava de permissão.
Ela se levantou. Ele a seguiu. Nenhum dos dois pagou o café.
Na porta, ela virou-se.
— Se você vier comigo agora, não tem volta.
— Eu nunca fui bom em voltar.
Eles saíram. Juntos. Como quem sabe que o tempo não espera mais.
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