Capítulo 26: O Tempo que Reencontra

Era uma noite comum. Uma palestra sobre literatura contemporânea, num centro cultural discreto, daqueles que só os atentos descobrem. Ela estava lá por acaso — ou pelo menos era o que dizia a si mesma. Um convite de uma amiga, uma tentativa de sair da rotina, uma vontade de respirar outros ares.

Ele também estava lá. Como convidado.

Ele não sabia que ela estaria. Ela não sabia que ele falaria. Mas o destino, como sempre, não precisa de avisos — só de oportunidade.

Ela o viu primeiro. No palco, com a postura tranquila de quem já não precisa provar nada. Ele falava sobre escrita como quem fala sobre vida: com verdade, com leveza, com cicatrizes que viraram tinta.

E então, ele leu um trecho.

“Há encontros que não precisam durar para permanecer.

Às vezes, basta um café, um silêncio compartilhado, um olhar que não pede nada.

E isso, por si só, pode mudar tudo.”

Ela soube. Não pelo texto, mas pelo tom. Pela pausa entre as palavras. Pelo jeito como ele olhava para o papel, como se estivesse vendo mais do que letras.

Depois da palestra, ela hesitou. Poderia ir embora. Fingir que não foi tocada. Mas já não era a mesma mulher que fugia do que sentia. E ele, ao vê-la se aproximar, sorriu. Não com surpresa — com reconhecimento.

— Você ainda escreve como quem sente demais — ela disse.

— E você ainda aparece quando o tempo decide que é hora.

Eles não se abraçaram. Não se tocaram. Mas o reencontro estava ali. Vivo. Maduro. Sem urgência. Sem promessas.

Ambos sabiam: o que viveram não precisava ser repetido para continuar existindo. Mas agora, talvez, o tempo estivesse disposto a dar-lhes algo novo — não como continuação, mas como recomeço.

Comentários

Postagens mais visitadas