Capítulo 12: O Que Não Se Diz
O café já não era mais cenário — era cúmplice. A luz da tarde atravessava o vidro com suavidade, desenhando sombras sobre a mesa onde os dois se reencontravam sem nomear o reencontro. Ela mexia no colar distraidamente, ele girava a xícara entre os dedos. Nenhum dos dois falava sobre o passado. Nenhum dos dois perguntava sobre o presente.
Mas os corpos falavam.
Ela cruzava as pernas com precisão, e ele desviava o olhar
tarde demais. Ele se inclinava para ouvir melhor, e ela sentia o calor da
proximidade como uma lembrança que nunca esfriou. A conversa era leve — livros,
viagens, cafés ruins — mas o subtexto queimava.
— Você parece mais... contido — ela disse, com um sorriso
que provocava.
— E você parece mais perigosa — ele respondeu, sem piscar.
Ela riu. Um riso curto, mas cheio de tensão. Ele a observava
como quem lê um poema antigo, já decorado, mas ainda capaz de surpreender. E
ela sentia — no toque acidental, no silêncio entre frases — que o desejo não
havia morrido. Só estava educado demais para se mostrar.
— É engraçado — ela disse, olhando para a rua — como certas
coisas acontecem e a gente finge que não.
— Como este café, por exemplo?
— Como este café.
Ele sorriu. Um sorriso que não pedia nada, mas oferecia
tudo. Ela desviou o olhar, mas não se levantou. O tempo parecia suspenso, e o
mundo lá fora não tinha pressa.
— A gente vai sair daqui e seguir nossas vidas, né? — ela
disse, quase como uma pergunta.
— Claro. Como se nada tivesse acontecido.
— Mas aconteceu.
— E foi bom.
Ela assentiu. E naquele gesto havia tudo: aceitação, desejo,
saudade. Eles sabiam que não podiam. Mas também sabiam que, por um instante,
foram tudo o que queriam ser.
Comentários
Postar um comentário