Capítulo 15: O Homem Que Caminha com Fantasmas
Ele não falava sobre ela. Não com os amigos, nem com os
colegas de trabalho. Mas ela estava lá — em cada silêncio, em cada hesitação,
em cada escolha que ele fazia com mais cuidado do que antes.
Ele começou a correr pela manhã. Não por saúde, mas por
fuga. A cidade parecia mais suportável quando vista em movimento. Cada passo
era uma tentativa de deixar para trás o que não podia ser resolvido. Mas ela
surgia mesmo assim — no rosto de uma desconhecida que sorria de lado, no cheiro
de café que escapava de uma padaria qualquer, no som de uma música que ela
mencionou uma vez, sem dar importância.
Ele tentava reconstruir. Reformou o apartamento, trocou os
móveis, mudou a rota para o trabalho. Começou a frequentar lugares novos,
conhecer pessoas novas. Mas havia sempre um momento — aquele instante entre o
riso e o silêncio — em que ele se perguntava se ela também pensava nele.
Não como saudade. Mas como possibilidade.
Ele escreveu. Muito. Textos que não mostrava a ninguém.
Fragmentos de diálogos que nunca aconteceram. Despedidas que ele imaginava,
reencontros que não ousava desejar. E aos poucos, percebeu que não precisava
esquecê-la. Precisava aprender a viver com o que ela representava: o que
poderia ter sido, mas não foi.
A lembrança dela não o impedia de amar de novo. Mas o fazia
amar diferente. Com mais presença. Com mais urgência. Com mais verdade.
Ele não esperava reencontrá-la, mas não negava sua
existência. Ela era parte dele — não como ferida, mas como cicatriz que molda o
jeito de andar.
E assim, ele seguia. Um homem que aprendeu a caminhar com fantasmas. E que, mesmo sem saber, se tornava mais inteiro a cada passo.
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