Capítulo 17: O Eco que Ela Não Esperava

Ela não pensava nele todos os dias. A vida havia seguido com naturalidade: trabalho, compromissos, um relacionamento estável e gentil. Ela sorria com frequência, fazia planos, e até começava a pensar em coisas que antes pareciam distantes — como estabilidade, como futuro.

Mas às vezes, o passado tem um jeito curioso de se manifestar.

Foi numa noite qualquer, enquanto lavava a louça, que ela se pegou lembrando do café. Não do sabor, mas do silêncio entre eles. Do jeito como ele a olhou, como se soubesse que aquele momento não voltaria. E ela sentiu algo estranho — não saudade, mas uma espécie de inquietação. Como se tivesse deixado algo inacabado.

Nos dias seguintes, ele aparecia em detalhes: no modo como alguém cruzava a rua, no timbre de uma voz parecida, no gesto de um desconhecido que ajeitava a manga da camisa como ele fazia. E ela não entendia por que aquilo voltava agora, depois de tanto tempo.

Ela não estava infeliz. Mas havia uma parte dela que começava a se perguntar se a paz que vivia era suficiente. Se o conforto não havia engolido a intensidade. Se o que sentiu com Ele — mesmo que breve — não era mais verdadeiro do que tudo que veio depois.

Ela não procurou por ele. Não mandou mensagem, não passou pelos lugares onde poderiam se encontrar. Mas o pensamento persistia. E com ele, uma pergunta silenciosa: Será que ele também lembra?

Ela começou a escrever. Pequenos textos, nada demais. Fragmentos de pensamentos que não compartilhava com ninguém. Coisas como:

“Alguns encontros não pedem continuidade. Só deixam marcas.”

“O que não foi vivido também pesa.”

Essas palavras não eram confissões. Eram tentativas de entender. Porque, mesmo sem querer, ela começava a sentir o eco do que viveu. E esse eco, embora discreto, já mudava o jeito como ela olhava para o presente.

Ela não sabia se voltaria a vê-lo. Mas sabia que, de algum modo, ele ainda caminhava com ela — não ao lado, mas dentro.

Comentários

Postagens mais visitadas